R$ 5,3 milhões sumiram e ninguém viu? Escândalo em Inocência chega à Justiça e coloca prefeitura na berlinda

A sorte que a prefeitura não teve: acusado de desviar R$ 5,3 mi gastou R$ 914 mil em loteria, diz MPMS

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Em Inocência, município de Mato Grosso do Sul, uma investigação envolvendo milhões de reais dos cofres públicos levanta uma pergunta que a população tem todo o direito de fazer: afinal, quem estava fiscalizando o dinheiro da prefeitura?

O ex-tesoureiro municipal Michell Bruno Medeiros de Almeida responde a uma ação criminal relacionada a supostos desvios milionários ocorridos entre 2022 e 2025. O caso, que já chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), também provocou a abertura de uma comissão processante na Câmara Municipal para investigar eventual responsabilidade político-administrativa do prefeito Antônio Ângelo Garcia dos Santos, conhecido como Toninho da Cofapi (PP).

Segundo informações atribuídas à denúncia do Ministério Público Estadual, o montante investigado alcança R$ 5.371.808,74.

O valor impressiona. Mas talvez a pergunta mais desconfortável não seja apenas quanto dinheiro teria desaparecido. É como movimentações dessa dimensão poderiam ter ocorrido durante tanto tempo sem que os mecanismos de controle fossem capazes de interrompê-las.

Se o dinheiro público precisa passar por controles, conferências e prestações de contas, o que aconteceu com esses procedimentos em Inocência?

Apostas milionárias e uma conta que não fecha

De acordo com informações publicadas sobre a denúncia criminal, a investigação identificou movimentações financeiras relacionadas a jogos de loteria que teriam alcançado aproximadamente R$ 914 mil, distribuídos em 1.309 apostas.

A apuração também aponta movimentações incompatíveis com a remuneração do ex-servidor e a aquisição de bens.

Esses elementos precisam ser analisados no contexto das provas bancárias e contábeis. A existência de despesas com apostas, isoladamente, não demonstra a origem ilícita de cada pagamento.

Ainda assim, a dimensão das movimentações atribuídas ao investigado acrescenta um componente preocupante ao caso.

Enquanto o contribuinte precisa justificar cada imposto pago, a acusação descreve um cenário no qual recursos públicos teriam sido direcionados a contas particulares por meio de operações financeiras fraudulentas.

A investigação atribui ao ex-servidor a manipulação de registros de arrecadação e a utilização de pagamentos bancários para transferir valores.

Saiu da tesouraria, mas teria continuado com acesso ao dinheiro

Um dos pontos mais delicados do caso envolve a permanência do ex-servidor em atividades relacionadas às finanças municipais mesmo depois de deixar oficialmente a função de tesoureiro.

Segundo informações que fundamentaram decisões judiciais, Michell teria mantido acesso indevido a sistemas financeiros e bancários da prefeitura.

A situação é particularmente relevante porque o controle de credenciais eletrônicas constitui uma medida básica de segurança administrativa.

Em qualquer estrutura pública, a saída de um servidor de determinada função deveria provocar uma revisão das permissões de acesso, especialmente quando envolvem movimentações bancárias.

Em Inocência, a investigação indica que essa barreira pode não ter funcionado adequadamente.

Afinal, a tesouraria mudou de responsável ou apenas mudou o nome na porta?

A pergunta é uma crítica aos mecanismos administrativos e não representa conclusão antecipada sobre a responsabilidade de qualquer gestor.

Caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça

O processo também foi analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em recurso relacionado à prisão preventiva de Michell Bruno.

Em acórdão publicado em junho de 2026, a Corte manteve a decisão que havia negado o pedido de liberdade, considerando os fundamentos apresentados para a custódia cautelar.

O documento judicial menciona a gravidade das condutas investigadas, o montante superior a R$ 5 milhões e a necessidade de proteção da ordem pública e da instrução criminal.

A defesa, por sua vez, argumentou que o investigado possuía condições pessoais favoráveis, residência fixa, ocupação lícita e que já estava afastado das funções públicas. Também sustentou a possibilidade de substituição da prisão por outras medidas cautelares.

Os argumentos não foram suficientes para modificar a decisão naquele recurso.

É importante esclarecer que a manutenção da prisão preventiva não equivale a uma condenação criminal definitiva. O acusado conserva o direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

E o prefeito? Câmara abriu investigação sobre possível omissão

O escândalo também ultrapassou a esfera criminal e chegou ao campo político.

Em setembro de 2026, a Câmara Municipal de Inocência aceitou uma denúncia para instaurar comissão processante contra o prefeito Toninho da Cofapi.

O procedimento tem como objetivo apurar eventual infração político-administrativa relacionada à fiscalização e à proteção dos recursos públicos durante o período dos supostos desvios.

A comissão foi divulgada com a seguinte composição: Gerson Queiroz, na presidência; Drauton, na relatoria; e Thalita Leandro, como integrante.

A abertura da investigação não significa que o prefeito tenha participado dos supostos desvios, tampouco comprova omissão ou negligência.

O que está em discussão é a atuação administrativa dos mecanismos de controle e a eventual responsabilidade político-administrativa da gestão.

A distinção é fundamental: uma coisa é apurar quem teria realizado os desvios; outra é verificar se houve falhas de fiscalização e quem tinha o dever de evitá-las.

Três anos de movimentações suspeitas: onde estavam os controles?

A dimensão temporal do caso é um dos aspectos que mais exigem explicações.

As acusações abrangem um período superior a três anos, durante o qual o ex-servidor teria exercido diferentes funções na administração municipal.

Diante disso, surgem questionamentos objetivos sobre a rotina de fiscalização da prefeitura.

Quem conferia os extratos bancários? Como eram realizados os procedimentos de conciliação contábil? Quem autorizava pagamentos e alterações nos sistemas? Existiam relatórios periódicos de auditoria? As permissões eletrônicas eram revisadas quando servidores deixavam funções financeiras?

Essas perguntas não pressupõem que todos os mecanismos tenham falhado ou que superiores hierárquicos conhecessem eventuais irregularidades. São pontos que precisam ser esclarecidos por documentos e pelas autoridades responsáveis.

Porque, quando a acusação envolve milhões de reais e anos de movimentações suspeitas, não basta descobrir quem operava o sistema. É necessário compreender como o sistema era fiscalizado.

O dinheiro pode voltar aos cofres públicos?

Outro aspecto de interesse da população é a recuperação dos valores supostamente desviados.

Na investigação criminal, foram noticiadas medidas judiciais destinadas ao bloqueio de valores e à apreensão de bens para assegurar eventual ressarcimento ao município.

Entretanto, a existência dessas medidas não significa que todo o dinheiro tenha sido recuperado.

Para esclarecer a situação, será necessário identificar o montante efetivamente bloqueado, os bens apreendidos, os valores eventualmente restituídos e a situação atual das medidas patrimoniais.

A população tem interesse legítimo em saber não apenas o tamanho do prejuízo apontado, mas também quais providências foram adotadas para recuperar os recursos.

O que ainda precisa ser explicado

O caso de Inocência não deve ser reduzido à vida pessoal do investigado ou ao destino atribuído às movimentações financeiras.

A questão central envolve a integridade dos recursos públicos e a capacidade da administração municipal de fiscalizar seu próprio funcionamento.

O processo criminal deverá definir as responsabilidades penais de acordo com as provas produzidas e as garantias legais. Paralelamente, a apuração político-administrativa precisa esclarecer se houve falhas de fiscalização atribuíveis à gestão.

R$ 5,3 milhões não representam uma diferença qualquer em um fechamento de caixa. É um valor que exige explicações documentadas, fiscalização rigorosa e respostas públicas.

Enquanto a Justiça analisa as acusações, permanece a pergunta que deve orientar o debate em Inocência:

Se um servidor teria conseguido movimentar irregularmente milhões de reais durante anos, quem deveria ter percebido e o que foi feito para impedir que isso continuasse?

O MS Todo Dia ressalta que os fatos imputados ao ex-servidor dependem de julgamento definitivo e que a abertura de comissão processante não representa comprovação de responsabilidade do prefeito.

O espaço permanece aberto para manifestações da Prefeitura de Inocência, do prefeito Toninho da Cofapi, da defesa de Michell Bruno e da Câmara Municipal, inclusive para apresentação de documentos e esclarecimentos sobre os procedimentos de fiscalização e o andamento das investigações.

Fonte Jornal MS Todo Dia 

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